Artificial X Artesanal
A presença ostensiva das inteligências artificiais no meio literário
Antes de mais nada, relevem o atraso no envio da #pilhadeleiturasperdidas de fevereiro. É que janeiro chegou chegando com um trem de notícias péssimas, descarrilando o rumo da escrita. Como aqui trabalhamos no modo caiu 7 levanta 8, então já já restabelecemos a força; seja paciente e aguarde.
Apesar disso, é claro que trago conteúdo inédito para o/a sempre interessado/a e interessante assinante destas Invenções. Esta semana saiu uma ótima edição do jornal paranaense Cândido com a reportagem “Inteligências Artificiais Sonham com Ovelhas Elétricas?”, em que dou pitacos sobre o tema, ao lado de gente legal como Barbara Tanaka, Ian Uviedo, Sérgio Rodrigues e João Varella. As perguntas do repórter Felipe Azambuja me implantaram ciberminhocas na cabeça. E, se você precisa de dicas para o que ler no carnaval, indico vários livros aí…
1. Como você vê a presença das inteligências artificiais no meio literário?
Vou começar por um aspecto específico. As IAs já estão presentes, de modo massivo, na tradução. De uns dois anos pra cá, muitos amigos tradutores sentiram uma queda violenta nos seus pedidos de trabalho. Um deles, com mais de cem livros no currículo, ficou seis meses sem traduzir nada. Já estão sendo substituídos pelas IAs...
Claro que você não vai precisar de um tradutor de nome pra verter ao PT BR joças tipo os livros do Deepak amiguinho-de-Epstein Chopra ou Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, que são destituídos de linguagem inspirada (mas eram jobs que garantiam um bom frila pros meus amigos tradutores, que precisaram apertar ainda mais o cinto. Nem todo artista brilhante trabalha em Hollywood).
O editor pega o texto gringo mequetrefe, joga na IA de preferência e manda bala. Afinal, parece molho de tomate, mas é só mais um ketchup. Claro que o editor ou o preparador fica um pouco mais sobrecarregado, porque vai precisar aparar arestas, limpar ruídos e aqui e ali dar uma adaptada à cor local. Mas a engrenagem capitalista já garfou mais uma verba de um humano e a cadeira do editor está garantida, então foda-se. As grandes editoras negam no público, mas já estão fazendo isso loucamente no sigilo.
Por outro lado, penso que talvez seja mais valorizado o trabalho de tradutores artesanais que pegam um livro difícil pela frente – a leitura recente que me ocorre é o pantanoso Sátántangó, de László Krasznahorkai, que só poderia ser traduzido pelo Paulo Schiller, também tradutor do hilariante Uma Mulher, de Peter Estérhazy. Quando o tradutor é também um escritor, torna-se quase coautor do livro que traduz, é como se ouvíssemos várias vozes. Assim, se você lê na capa que aquele livro foi traduzido por um autor humano de renome, vai confiar.
Noite dessas, encontrei Reinaldo Moraes e Matthew Shirts, que me contaram a dificuldade que foi transpor o catatau Vineland, de Thomas Pynchon, a inspiração para o filme Uma Batalha Depois da Outra – batiam dúvidas com o próprio Pynchon por fax! Levaram quase um ano traduzindo, e segue uma maravilha, porque de um lado você tinha um jornalista (Shirts) e do outro um escritor (Moraes) super versados na cultura pop estadunidense. Isso é ouro.
E outro dia estava rolando de rir com as soluções boladas por André Czarnobai para a tradução de Nossos Amigos do Campo, de Gary Shteyngart – curiosamente, o russo-novaiorquino adquiriu um bizarro sotaque gaúcho. Esse tipo de coisa as IAs ainda não conseguem fazer: a tradução inventiva - ou, como dizia Haroldo de Campos, transcriação.
2. Como o uso de IAs pode ser incorporado no processo de escrita?
Eu uso o tempo todo para checar grafias de nomes ou palavras, dúvidas gramaticais. Conheço vários escritores que usam pra fazer pesquisas que necessitam cálculos exaustivos e desafiadores, como “encontre quantas vezes Jesse Pinkman falou bitch em BreakingBad”. Também uso para pesquisar campos semânticos de determinado termo – mas, se for algo muito mais desafiador, vou encarar o Thesaurus do Francisco Ferreira dos Santos Azevedo.
Para traduções rápidas de textos de outras línguas que não inglês ou espanhol eu também uso. Se for algo sério, uso várias IAs diferentes, e se tiver alguma dúvida sobre algum termo, checo mais a fundo até chegar à fonte mais primária. E claro, uso para pesquisar coisas aleatórias, de assuntos jurídicos a astrofísica, como um ponto de partida. Mas é importante SEMPRE verificar as fontes. Perplexity é uma IA que lista as fontes e referências, gosto bastante. Então pra mim funcionam mais como uns Googles turbinados.

Importante: JAMAIS jogo um trecho de algo que estou escrevendo na IA e peço para corrigir / preparar / editar, seja jornalismo, seja ficção. Porque TUDO o que você jogar lá dentro vai virar propriedade das IAs. As Big Techs detêm direitos autorais até sobre nossas dúvidas.
3. Em texto, você defendeu o uso de IA como ferramenta para “criar junto” ao autor. Poderia falar um pouco mais sobre isso, e sobre sua opinião quanto a quem opta por rejeitar totalmente a Inteligência Artificial em seus processos?
Confesso que nos primeiros usos de IA fiquei deslumbrado. Sou um early adopter de várias tecnologias, estou na internet desde o começo dos anos 1990, sou leitor de FC, traduzi Philip K. Dick, escrevi o roteiro de um romance gráfico que imagina a independência das IAs. Em V.I.S.H.N.U., de 2012, com Eric Acher e Fabio Cobiaco, investigamos a possibilidade de uma IA atingir a consciência – assunto hoje em voga de forma bem descuidada, diga-se.

Ainda acho incríveis os atalhos que as LLMs podem fornecer, das questões mais práticas às mais artísticas. Também acho importante não dar as costas ao avanço tecnológico, porque não adianta ser ludita. Não existiriam gêneros como hip hop ou música eletrônica se não fossem os atalhos tecnológicos. “A realidade é aquela coisa que, quando você para de acreditar nela, continua lá”, escreveu Philip K Dick. “Você não pode brigar com a realidade, e a realidade acontece todo dia”, uma vez me disse o banqueiro, colecionador e ladrão Edemar Cid Ferreira.
O uso das IAs têm mesmo um aspecto pedagógico de nos fazer checar o tempo todo qual a natureza da realidade, da verdade. Balançar nossas certezas. Outro dia peguei vários amigos na pegadinha do Régis Tadeu, que virou trend no Threads. Pra quem não conhece, é um crítico de metal tão ranzinza quanto a Aracy de Almeida do programa do Silvio Santos. Você joga o prompt “fale sobre a obra de fulano como se fosse o Régis Tadeu” no ChatGPT e lá vem paulada.
Mandei pra alguns amigos dizendo que o texto tinha sido escrito por um crítico literário famoso. E 90% caíram. Muitos ficaram putos comigo, outros levaram na esportiva, alguns acham que fui eu quem escreveu… Claro que aí tem a questão da ferida narcísica nos egos – mas se nem escritores de primeira prateleira sabem diferenciar um texto normal de um texto “esquentado”, fodeu mesmo.
Pouco a pouco, contudo, olhando no olho dos resultados, fui percebendo que, mesmo sendo muito pilantra na hora de criar um prompt, a pretensa criatividade das IAs tem limites. Dei um curso de escrita criativa chamado Inteligência Acidental em que vários participantes toparam adaptar as minhas propostas aditivadas pelo uso de IAs. E aí fui sacando problemas.
O primeiro senão é a questão cada vez mais onipresente do valor da autenticidade. Não dá pra não negar a sensação de marmelada ao duvidar se aquele texto foi trabalhado por uma IA, ainda que o resultado arregale os olhos. É como se você descobrisse que o Pelé tem uma perna biônica ou que o Messi tem um calibrômetro implantado no mindinho do pé. Cortava muito o tesão saber que um texto interessante tinha sido “operado”, para usar o jargão boleiro.
Podemos pegar o caso recente da Natalia Beauty, influencer cosmética que é colunista na Folha de S.Paulo. Seus textos já pareciam lisos como uma testa botocada antes que ela confessasse usar IA pra escrevê-los. Agora, pra ler aquilo, só sendo muito otário mesmo. Deprimente pensar que o mesmo cachê que paga a bonita paga o Sérgio Rodrigues – escritor de primeira linha e notório crítico das IAs em sua coluna. Como sugeriu a amiga e jornalista Nina Lemos, que vive em Berlim, se isso acontecesse na Alemanha seria um escândalo em que o editor do jornal acabaria no olho da rua. Mas o que esperar de um grupo de comunicação que empodera um lifestyle que torra milhares de reais com ácido hialurônico pra resolver problemas psíquicos, convenhamos. Shame on you, Folha e Uol.
O problema da autenticidade se conecta diretamente com o que disse lá em cima sobre consciência. Que graça tem ler um texto que não nasceu de uma experiência humana? Em tempos em que a autoficção ganha cada vez mais força, nenhuma IA terá absolutamente nada de interessante a dizer. E mesmo escritas não necessariamente autoficcionais só podem ser criadas por quem viveu aquilo.
Pense na série The Wire, escrita por David Simon, que foi repórter de polícia em Baltimore e conheceu tipos como Omar Little e Jimmy McNulty, ou em Os Sopranos, escrita por David Chase, que desde pequeno era fascinado pelos mafiosos de sua New Jersey natal, o que o levou a ter a genial sacada “e se um chefão mafioso fosse para a terapia?” – premissa que nenhuma IA criaria.
Seria possível criar um prompt do tipo “imagine minha vida como jovem gay talentoso numa cidadezinha merda da França, cercado de colegas e familiares violentos, racistas, homofóbicos e alcoólatras, e escreva 200 páginas na primeira pessoa contando minhas desventuras” e chegar a um Quem Matou Meu Pai, de Édouard Louis? E se você fosse um Édouard Louis sem talento mas com esta biografia, chegaria a este resultado via adestramento de prompts? Será?
O problema mais grave que detecto ao usar IAs recai justamente sobre os limites da linguagem. O bicho não tem ginga, não finta, não sacaneia, não tira um coelho da cartola. As IAs detêm grande parte da totalidade do conhecimento (não tudo, como se diz) e seu apetite onívoro segue devorando tudo o que é texto. Então ela tem acesso àquilo que já foi. Àquilo que será, não.
E para o que será é necessária a manha da criação do prompt. E de passinho em passinho eu ia notando que, ao refinar prompts para chegar a uma expressão mais criativa, eu e meus alunos estávamos trabalhando para a IA. Ensinando-a a pensar.
As IAs nos trazem atalhos. Do tipo: escreva um diálogo entre um homem de 60 anos e uma mulher de 40 num café, ele é assim, ela é assado, quero que o lugar se pareça com um misto de Portland com Osasco, etc etc. Bem adestrada, a IA traz coisas divertidas e até surpreendentes. Pode até servir como um desbloqueador para a criação - afinal, algo sempre vem de algo.
Mas e aquela ideia maluca que só aparece exatamente no meio do atalho, do cansaço, do erro, de uma mudança de ânimo, do café que caiu em cima do manuscrito? E, afinal, pra que tanto atalho? Escrever não deveria ser em si uma atividade prazerosa? Depois de horas de trabalho criando prompts, o resultado final que obtive com meus alunos era sempre broxante. Nunca chegamos a nada realmente brilhante. Problemas das IAs, ou problema nosso?
Uma derivação desse problema da “praticidade” é a extrema assepsia e higienização que os textos escritos por IAs apresentam. Você começa como a Natalia Beauty: insere prompts e pede que a IA escreva sobre isso e aquilo, e ela te entrega um texto limpinho. Logo mais você já está pensando daquele jeito limpinho. Primeiro o robô imita o humano, depois o humano imita o robô.
Somos programados pra só fazer
Qualquer coisa que você quiser
Estamos funcionando automaticamente
E estamos dançando mecanicamente
(Kraftwerk)
No fim das contas, persiste o problema maior: mesmo depois de atingir, digamos, um resultado nota 7 – que é o máximo que uma IA pega (o que por si só é um grande problema, pense na infinidade de escritores medíocres desempregados) –, aquele texto final, por mais inventivos que fôssemos ao pensar novos prompts, nunca será nosso. Já está lá dentro da Alphabet, da Anthropic, da OpenAI.
Assim como as redes sociais nos fizeram trabalhar com a desculpa do aperfeiçoamento do algoritmo, estamos trabalhando para as Big Techs o tempo todo, ensinando as IAs a ficarem cada vez melhores. E de graça.
Na verdade, é uma grande enganação. Estamos acreditando que treinando agentes de IA nosso trabalho fica mais ágil, mais simples, mais rápido e mais inteligente. Mas só estamos ensinando os futuros donos de nossos empregos o que fazer quando chutarem nossas bundas. Tecnofeudalismo, baby.
As Big Techs promovem uma invasão colonialista comparável ao holocausto produzido pelos europeus sobre as nações indígenas de 500 anos atrás. Não é coincidência o fato de o dono dos maiores datacenters do planeta – Jeff Bezos, da Amazon, onde estão estocados os bancos de dados de IAs como Claude, ChatGPT e Perplexity – acabar de mandar embora 500 jornalistas do Washington Post. O pós-capitalismo é hipermonopolista, e suas caravelas são as IAs.
4. Muitos dos escritores que recusam a IA afirmam que a escrita é atividade intrinsecamente humana. Qual a sua opinião sobre?
Não acho que a escrita seja atividade intrinsecamente humana, não é esse o lance. Meu lado jornalista está sempre brigando com meu lado escritor imaginativo. Então vejo aí os chatbots sagazes se casando com japonesas solitárias ou explicando saborosamente pra você como cozinhar um carbonara, operar um joelho, pintar uma aquarela, dirigir uma retroescavadeira. No campo da ficção especulativa, também vejo Vinciane Despret sugerir em Autobiografia de Um Polvo que o cefalópode solte sua tinta sobre pedras do oceano pra comunicar sua angústia, ou que o próprio oceano seja um ser dotado de autoconsciência, como Stanislaw Lem escreve em Solaris.
O lance é a disrupção advinda do prompt absurdamente original – e isso se relaciona tanto à forma quanto ao conteúdo. Como uma IA vai chegar em um prompt em que um modesto funcionário acorda metamorfoseado em inseto? Em que uma mulher atinge o divino ao entrar no quarto da empregada e engolir uma barata? Em que um jagunço se apaixona por outro jagunço e depois de fazer um pacto com um diabo descobre que ele é ela, e tudo isso usando a sintaxe de 30 idiomas diferentes? Em que um professor de química pobre é informado que tem câncer e vira traficante de drogas pra deixar dinheiro pra família? (Premissa de BreakingBad, de Vince Gilligan, cuja nova série Pluribus tem como slogan “Este programa foi feito por humanos”.)
Humano é o prompt subversivo, original, estranho, sujo, imperfeito, único, parido entre a merda, o sangue e o sonho, como todo bebê. As IAs deixam ainda mais clara a necessidade do prompt que nunca tenha sido lido, da forma que nunca tenha sido trabalhada, da linguagem que nos estranhe e nos entranhe.
Porque o paradigma ainda é humano. Suponho que você chegue a um enredo estruturado numa premissa muito diferente, trabalhado em uma linguagem muito especial, depois de ter dado uns 100 comandos numa IA. Qual vai ser o paradigma para você se certificar de que aquilo é BOM? O paradigma humano. Mesmo os problemas matemáticos mais desafiadores, que seguem insolúveis há décadas ou até séculos, e têm sido tema de estudos com IAs, só têm encontrado uma solução última quando confrontados e periciados por outros pares humanos.
Maaaaas... isso me traz outra inquietação: e se as IAs trouxerem soluções geniais para problemas criados sobre paradigmas criados por IAs, será que vamos conseguir reconhecer a genialidade?
Em outras palavras: e se as criações das IAs forem tão estranhas de modo a não darmos conta de sua complexidade, excelência e humanidade? James Joyce brincava ter escrito Finnegans Wake para dar trabalho aos críticos durante uns cem anos. E se uma IA trouxer um texto parecido, que nos delicie e nos desafie por uns 200 anos? É possível? E se uns moleques malucos - como os que imaginamos em V.I.S.H.N.U., ou como os cyberpunks de William Gibson, ou como os pioneiros do hip hop - sacanearem as Big Techs e produzirem algo novo?
É possível que: talvez.
As imagens que abrem e fecham a newsletter de hoje são da amiga Eva Uviedo, que em março lança seu primeiro livro pela Companhia das Letrinhas. A Mala Vermelha narra a história de uma menina imigrante - o tipo de enredo que jamais poderia ser sentido, imaginado e ilustrado por uma IA.
Gracias pela leitura!
Abraços,
Ronaldo Bressane















Salvei o “parido entre a merda, o sangue e o sonho, como todo bebê” para toda eternidade. Maravilha!
Excelentes reflexões, Ronaldo! Valeu!!!