Imortal comum
Nos 100 anos de Carlos Heitor Cony, resgato uma entrevista de 20 anos atrás

Antes, o contexto: vinte anos atrás, havia uma coisa chamada imprensa customizada. Eram revistas, jornais e outros impressos anabolizados pela grana do marketing de grandes empresas. Escrevi para todas essas revistas - o cachê era melhor do que na imprensa regular, para onde eu também escrevia. E durante dois anos fui editor da V Magazine, a revista customizada da Volkswagen. Apesar do que pode parecer, a publicação estava longe de ser chapa-branca - pelo contrário, muitas vezes uma publicação customizada podia ser mais crítica e independente do que um jornal que não assume sua dependência financeira de determinados grupos políticos (sim, Estadão e Folha, estou falando de vocês). Claro que naquele planeta só existia uma marca de automóveis. Mas em 80% do conteúdo criávamos o que nos desse na telha - incluindo editoriais de moda usando como modelos dummies de fábrica e trabalhadores de sucata.
E aí ocorre que, muito graças à sagacidade das diretoras de redação, Raquel Alves e Rosiane Moro, e ao diretor de marketing da VW, Sergio Kakinoff - mais tarde presidente da Gol e hoje CEO da Porto -, eu tinha uma liberdade que poucas publicações davam. Não vou me alongar nas ousadias que publicamos, mas dá pra citar que colocamos Lampião na capa - a única vez que um bandido foi capa de uma revista customizada! -, em reportagem de Xico Sá, que havia descoberto imagens inéditas do bando registrado por Benjamin Abrahão (história bem contada no clássico Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas). Tínhamos uma opção de capa mais, digamos, quente - um ensaio sexy de Giulia Gam, clicado por Marcio Scavone, em que a atriz dizia coisas nada elogiosas do ex, Pedro Bial, em entrevista a Karla Monteiro -, mas sugeri a Kakinoff que Lampião nunca tinha sido capa de revista e que portanto aquela era a ideia mais maluca. O diretor de marketing da maior montadora do país não titubeou - e a capa com Lampião foi a mais vendida: 170 mil exemplares (100 mil só no Nordeste, hehe).
É nesse contexto que podíamos meter na capa um escritor importante, mas não exatamente popular: Carlos Heitor Cony. O carioca fazia 80 anos e como fã do magistral romance Pilatos eu precisava ir lá trocar uma ideia com o homem. Então você lerá uma entrevista leve, mas não menos crítica, tanto ao ex-presidente FHC quanto ao então atual, Lula. Outros tempos, em que o marketing de uma grande empresa não tinha medo de perder subsídios do governo por causa de umas aspas ácidas de um intelectual.
Cony estava apressado então o papo foi só de duas horinhas, mas saímos juntos até seu compromisso - o velório de um amigo. Antes de entrar no elevador, o baixinho e parrudinho bigodudo acendeu um Romeo & Julieta. Um andar depois, o elevador parou e entrou uma lindíssima mulher mulata, de saia e tailleur brancos. Cony mediu-a dos saltos altos à cabeça penteada em coque, sorriu, se afastou pro lado e apontou o charuto: “Incomodo?”. A mulher devolveu o sorriso: “O senhor nunca incomoda, senhor Carlos”. Ao sair do elevador, segui o olhar suingante de Cony, que não perdeu o timing: “A essa altura, a única coisa que me resta é admirar a beleza... De pé, só esse charuto! Haha! Foi um prazer”, despediu-se, por trás da névoa, sempre sorrindo, antes de entrar no táxi.
Outros tempos.
Divirta-se.
O imortal comum
Por Ronaldo Bressane | Fotografia Eduardo Monteiro
Quem lê a Folha de S. Paulo ou ouve a rádio CBN, quem tenha folheado uma revista Manchete ou só visitado uma livraria, certamente deve ter tropeçado nele: Carlos Heitor Cony é um dos nomes mais onipresentes na mídia e na literatura brasileiras dos últimos 50 anos. E também uma rara voz discordante a sobressair no chamado “apagão intelectual” que obscureceu nossos pensadores desde que a dupla de fraternos brigões FHC-Lula subiu a rampa do Alvorada. Chegando aos 80 anos com um corpinho anarquista de 20, sem mumificar a escrita, cada vez mais próxima do homem comum, o acadêmico fala de imortalidade, política, literatura e revela detalhes do novo livro
Bom de prosa.
A expressão é talhada para ele. Talvez tenha a ver com o fato de Cony só ter começado a falar aos 5 anos — assustado com a chegada de um avião na praia de Icaraí, onde estava, soltou um grito, alegrando os pais, que até então o julgavam mudo. Fato é que este carioca da zona norte adora falar. Peça uma opinião ou uma narrativa: senta que lá vem história. Muitas se cruzam com a própria História.
Como suas seis prisões, na época da ditadura. (A mais insólita delas, por atentado ao pudor — o escritor foi flagrado indo às vias de fato com a esposa de um capitão do Exército, sobre o capô de um Fusca, que é, segundo ele, o automóvel ideal para o esporte). Foi um dos primeiros jornalistas a declarar guerra ao estado de exceção — sarcasmo contra o poder que caracteriza sua escrita. (Está sendo processado por 48 delegados da Polícia Federal — cada um pede R$ 25 mil de indenização pois Cony, revoltado com a morte de Dorothy Stang, afirmou à CBN que “a polícia é um câncer”.)
Cony fez história dirigindo revistas como Manchete e Ele&Ela e emissoras como a TV Manchete, onde dava pitacos preciosos na direção artística — séries bem-sucedidas como Kananga do Japão e Dona Beja têm um ou dois dedos do mestre. (Precursor, já havia escrito uma novela abordando a baixa classe média em 1965, na TV Rio — foi afastado por problemas com a censura.) E, claro, fez história em quinze romances, coletâneas de contos, crônicas e romances-reportagem, e chegou até a ser uma espécie de ghost writer de Juscelino Kubitschek. (Chutando a modéstia, jura não dar bola para sua produção literária — que colecionou Prêmios Jabuti com uma escrita clara, próxima ao prosaico, de fundo existencial. Lava as mãos para seus escritos e aponta apenas Pilatos, romance de 1975 sucesso de público e apedrejado pela crítica, como filho favorito.)
Imortal desde 2000, o autor de Quase memória afirma renunciar às pompas da Academia na hora de seu funeral. Mas assume gostar de liturgias. Os cerimoniais foram o chamariz para uma quase carreira clerical; seminarista, Cony desistiu de ser padre aos 47 do segundo tempo, talvez mais interessado em moças que em salmos. O que explica a religiosidade presente em seu texto, sempre em confronto com um inusitado e às vezes até perverso sensualismo. Casado seis vezes — a atual mulher, Beatriz Lazta, ouve suas confissões há 28 anos — o seminarista que virou ateu não se furta a dar uma conferida nas garotas que se apertam no elevador, charuto Romeo & Julieta em riste.
V foi ao escritório do acadêmico na rua do Catete, entrevista comprimida justamente por conta da morte de um imortal, o ex-ministro Oscar Dias Corrêa, de seu amigo jornalista Luiz Carlos Bahia e de um primo, que naquele dia teria sua missa de sétimo dia. Assim, por duas horas o tema morte ficou, digamos, tão vivo quanto as pernas do escritor, balançando sem parar debaixo da mesa. Também falou-se de literatura, religião, história e política — contraditório como sempre, este crítico debochado da democracia adora dar uma bengalada nos políticos. Bengala aqui é só metáfora: Cony segue firme e forte, olhos argutos — dedilhando no laptop o próximo romance.
V Um imortal tem medo da morte? Carlos Heitor Cony Pois é, essa semana perdi três amigos: um primo, o Oscar, o Bahia... Não tenho medo, mas tenho nojo do ritual. Tenho medo é da dor e da falta de dignidade. A morte deveria ser uma coisa mais higiênica e simples. Da morte não tenho medo, afinal só tenho isso mesmo na agenda. Hoje tenho uma missa deste primo, amanhã vou comer um peixe, um cherne de forno, mas na agenda só está presente isso. Como imortal, tenho direito a mausoléu, sessão solene, mas dispus que não quero isso. Quero ser cremado. Que joguem minhas cinzas numa fazenda. Jorge Amado jogou em sua chácara, mas moro na Lagoa, não vou jogar minhas cinzas lá pois já está bastante suja...
Como se sente chegando aos 80 anos? Bombardeado! [Risos] Tinha uma parenta, minha sogra, que o médico olhava e dizia “não passa dessa noite”. Ela viveu mais um ano [risos]. É o que digo para mim, todo dia, para driblar a morte.
Faz exercícios? Fiz muito, hoje não. Parei por vários motivos. Dava a volta na Lagoa, 7.200 metros. Joguei muito futebol, vôlei, tênis...
Acompanha futebol? Era Fluminense. Hoje só acompanho, mas não sofro mais. Era supersticioso, não podia ver certas pessoas, não fazia barba em dia de jogo, se visse certas pessoas nem ia às Laranjeiras...
Como é a Academia? Sempre quando posso vou lá. A gente nasce numa família, depois vai pra escola, faz amigos, no secundário, faz amigos que duram mais tempo. Fui fazer CPOR, o major disse que a gente faria amigos pelo resto da vida. E é verdade: por acaso, daquela turma do CPOR, três amigos estão hoje comigo, Cândido Mendes de Almeida, Sábato Magaldi e Lêdo Ivo. Mas, quando você chega a uma idade, as paredes se estreitam, os amigos morrem.
Você vai mais a velórios que a festas de aniversário... É o inverso do jardim da infância: quando você chega aos 65, homem vivido que não tem mais nada pra provar, apanhou muito da vida, teve suas compensações, você convive com um grupo que, no fundo, é um jardim da infância. O chato é que praticamente todo ano morrem 2,2, essa é a média [risos]. Quando a Zezé, a secretária, liga pra gente de manhã, a gente já sabe [r]... Só entra para a Academia quem é cordial com os outros. O que quer entrar para brigar em geral não entra. Na fundação da academia, 1897, monarquistas e republicanos que se digladiavam na rua dentro da academia eram cordiais. Agora, lá o valor intelectual vai de zero a infinito.
Mas, afinal, para que serve a ABL? Ninguém vai por causa do chá da quinta-feira. Temos ordens do dia, temos de administrar o patrimônio, as duas bibliotecas. Temos concursos literários, 18 prêmios por ano... E não devemos ao governo. Na França, o acadêmico é submetido ao presidente. Quando entrei, todo dia esculhambava o FHC, imagine se fosse na França. A Academia reúne nossas contradições, você podia ver Celso Furtado e Roberto Campos, os maiores economistas do Brasil, cada um de um lado, tomando chá na mesma mesa.
Como é sua rotina? Acordo às 6 da manhã, leio os quatro jornais, escrevo uma crônica para a Folha. Hoje, sexta-feira, já mandei três crônicas. E tem a da sexta-feira, que é a mais elaborada. As pequenas são de 2.300 caracteres, a grande é de 6 mil.
São raros escritores oitentões que falam em caracteres... Quando comecei, você escrevia o quanto queria, não tinha tamanho. Aí veio uma lei do Getúlio que dava direito aos tipógrafos que recusassem texto não batido à máquina. Isso aposentou toda uma geração. Meu pai parou quando chegou a máquina de escrever. Ele aprendeu a bater, mas só pensava a lápis. Na modernização, com a Folha da Tarde e a Última Hora, veio o sistema americano, por laudas. Isso já dava uma certa noção de espaço. Agora, o computador só facilitou. Tenho três laptops, um para viagem, outro de reserva, e mais dois computadores em casa. Sinceramente, já estava fatigado da máquina de escrever! Parece que escrever romances inclusive por causa disso. Hoje tenho uma produção grande por causa do computador...
[A secretária Beth interrompe: “Cony, é Ziraldo, de Paris, você atende?”.) Ziraldo? Tudo bem? Onde você está? Hotel? Ô Ziraldo, vê se não vai dar prejuízo ao hotel, como você fez no México, hein? Aquela vez que você deu um prejuízo de doze mil dólares porque ficou rabiscando numa mesa asteca... [Risos] O que é? Sei, sei... Suas chances? Na Academia? Olha, você tem que ver que há pessoas já interessadas na vaga... Há o Nelson Pereira dos Santos. Eleitor? Eu não sou um grande eleitor, Ziraldo. Você tem de falar é com o [Arnaldo] Niskier, esse sim é um grande eleitor. Fala com o [José] Sarney, que, apesar de você não gostar dele, ele gosta muito de você... viu, Ziraldo? Olha, eu estou em uma entrevista aqui, falamos mais tarde, tudo bem? Um abraço, boa sorte!
O Oscar mal esfriou e já estão interessados na vaga dele? [Faz um esgar de sobrancelha] Sim, o Ziraldo tem uma obra interessante... mesmo que não seja escritor, mas há outros intelectuais cotados. O José Louzeiro [autor de Pixote], o embaixador Dário Castro Alves, ex-marido da Dinah Silveira de Queirós, grande conhecedor de Eça de Queiroz... mas o Nelson [Pereira dos Santos, cineasta] é o que está mais forte. Sua obra sempre teve atração por clássicos, ele filmou Vidas secas, Memórias do cárcere, e gosta da ABL, freqüenta as festas, já deu palestras ali...
Você gosta de tecnologia, já pensou em ter blog? Aí é exposição demais. Tenho uma exposição exagerada pro meu gosto, há 52 anos escrevo em jornais. Quando era criança, gostava de ficar embaixo da mesa, para ter aquela visão do Tom & Jerry, não sabia como era o mundo pra cima da cintura.
Se considera um tímido? Sou, sim, mas não sou bobo. Há hora em que tem que aparecer, como dar o bote em cima de uma mulher... aí não tenho timidez.
Falando em blogs... como vê a massificação das biografias? É uma tendência de consumo. As biografias são prolongamentos de segundos cadernos nos jornais. Como capital de giro, biografia é rentável. Mas depois de certo momento mingua, ao contrário do bom romance, do bom ensaio, que duram. Chatô, do [Fernando] Morais, acho perfeita. Recebi agora uma proposta de fazer uma biografia do JK, mas declinei.
Como foi sua convivência com JK? Foi um amigo que fiz no convívio profissional, num tempo em que era ovelha negra. Eu também era, em escala menor, uma ovelha negra. Ajudei a ele a escrever suas memórias. Quando o conheci, em 1968, saindo da prisão, em São Gonçalo, eu tinha sido preso em São Cristóvão, ele estava juntando documentos, havia 3 mil páginas, e nem tinha chegado ainda a falar da presidência... Fui um editor daquele material. Demorei sete anos fazendo isso, de 1969 a 1976. Completei o último volume como um livro à parte, que assinei. Mas não me interessei em escrever sua biografia, embora tenham me oferecido um bom dinheiro.
Como vê os políticos de hoje se compararem a JK? O JK não tinha visão histórica para profetizar que isso iria acontecer. Não pensava que teria a auréola que tem hoje. Era um realizador. Daí suas depressões, sempre achava que poderia ter feito melhor. Não pensava na posteridade, só no presente. Como estadista, Getúlio foi melhor, mas Juscelino foi melhor governante.
E quando FHC e Lula se ligarem a ele... Creio que é mais no sentido do homem que foi execrado e depois recuperado. Mas não no sentido de realizações. Lula não fez um quilômetro de estrada. Esses programas sociais são assistenciais, não mexem na estrutura. Juscelino mexeu na estrutura física, Getúlio na estrutura mental. Juscelino tinha uma visão telescópica, Juscelino tinha a energia. JK saía daqui às 8 da noite, chegava em Brasília à meia-noite, fiscalizava as obras, voltava ao Catete às 4 da manhã, às 8 estava já de pé. Isso durante meses e meses. Dormia no avião, um DC-4. Dormia em qualquer lugar, não à toa morreu dormindo.
Lula não traz essa energia que tinha JK? Acho estranho quando ligam o JK à bossa nova, cinema novo, futebol... ele não fez nada disso. Ele só trouxe sua energia, despertou as potencialidades que tínhamos. No caso do Lula, houve muita badalação, oba-oba, primeiro operário, nordestino, pau-de-arara, houve a euforia, Fome Zero, Bolsa Família... o fato é que ele entregou o Brasil ao mesmo grupo internacional que havia dominado os anos FHC. Uma vez a Fernanda Montenegro me disse que se casou, criou dois filhos, comprou sua casa com dinheiro da bilheteria. Hoje, se não tiver patrocínio, não ganha um tostão. Você pergunta da política cultural... o Gil é uma boa pessoa, mas não tem verba.
Como vê a educação na Era Lula? Nessa submissão ao Consenso de Washington, vê-se que não há dinheiro para incentivo cultural. No avião do presidente passou o filme 2 filhos de Francisco numa cópia pirata. Esse é o símbolo da situação do Brasil. A prioridade do governo é ter superávit para pagar dívidas. Já no tempo do FHC se desmantelou a indústria nacional. Na era FHC, eu voltava da Europa de navio, e parei no Recife. Ali vi que descarregavam sacos e mais sacos de arroz coreano, a noite toda descarregando caminhões enormes. Poxa, nada contra os coreanos, mas será que a gente não consegue plantar arroz? Você desce aí nos camelôs, só produtos chineses. A indústria brasileira está desmantelada. O único segmento que continua lucrando são os bancos.
Em quem você votou? Não voto mais. O último voto foi no socialista João Mangabeira, fundador do PSB, acho que foi em 1955. Não acredito na democracia representativa. É ideal, mas não funciona. Quando eu não tinha isenção, devido à idade, anulava. Não voto nem nas eleições da ABL. Há uma cabala grande, os autores começam a pedir, a dar presentes, a fazer pressão. Pra evitar isso, não voto.
Conquistou uma independência política? Tenho dependência ao meu estilo de ver o mundo. Em meu discurso de posse na ABL, disse que não tenho disciplina para ser de esquerda, firmeza para ser de direita e recuso o centro pois é oportunista. Só me resta ser um anarquista triste e inofensivo.
Por que a democracia não funciona? Para funcionar de verdade deveria ser anarquista, sem partidos, sem patrocínios, cada um manifestando seu ponto de vista independente. Se você é apoiado pela igreja, pelo capital internacional, pela esquerda, por fulano, pelo Ferreira Gullar, não vou votar em você, e sim numa árvore de Natal cheia de penduricalhos. Por mais honesto e bacana que seja, um dia você vai ter que pagar um tributo a seus apoios. Não voto em você, e sim em um monstro feito de vários pedaços de cadáveres. Um político é um Frankenstein. Pega o Lula! É uma colcha de retalhos, tem pedaços de cadáveres do Jango, do Juscelino, do FHC, do Getúlio, é um monstro. [Bate na mesa.] Eu não voto!
Que acha de Lula toda hora vir a público se orgulhar de ser presidente sem ter lido um livro? O Lula tem uma massa muito dinâmica, é muito inteligente, percebe tudo imediatamente, mas não vê o fundo. Por exemplo, ninguém melhor que ele percebe que isso aqui é um cinzeiro [aponta o objeto]. Essa percepção imediata ele tem, aquilo que o Aristóteles chamava de simples apreensão. Primeiro a apreensão, o raciocínio, aí o juízo. Por exemplo: você é homem; todo homem é mortal: logo, você é mortal. O Lula só faz a primeira operação. Agora, ninguém faz essa operação melhor que ele [risos].
Isso é que é um elogio enviesado... Os animais também têm essa simples apreensão. O juízo, não [risos]. FHC já tem um juízo, é um intelectual. Mas o juízo procurando o interesse próprio. O FHC emite uma ideia já corrompida com um interesse pessoal. Por exemplo, aquela história, “todo mundo é mortal etc.”, o FHC já pensa “Em que posso lucrar com essa história de todo mundo ser mortal?” [risos]. É o princípio do pragmatismo. Entre as duas, prefiro a do Lula, menos corrompida culturalmente, é mais simples, mais perto do animal.
Falando em política, ontem, aqui no Rio, traficantes assassinaram os mandantes do atentado ao ônibus 350... Dizem que esses traficantes detêm o Estado paralelo. Mas eles é que são o Estado real! O Estado está falido. O Estado é mesmo desde o tempo do Pepino Grosso, do Carlos Magno, o Estado provedor, com mais ou menos obrigações sociais. A tecnologia cresce geometricamente e as ideias gerais crescem aritmeticamente. O Estado está esgotado como ideia, assim como a democracia ou a ditadura. Quando se fala que o crime é Estado paralelo, diga-se que é a ponta de lança que patenteia a superação do Estado tal como o concebemos. Precisamos pensar em outro Estado. O atual é um câncer. Sabe, se não fosse o câncer, seríamos uma mônada no fundo do oceano. Mas algumas células desobedeceram o código genético e fizeram a mônada se transformar em peixe. Daí outras células cancerosas do peixe desobedeceram o DNA de peixe e ele virou um anfíbio, e aí foi. Esse câncer são células não-domesticadas. Esse terror em Paris e o fundamentalismo no Oriente Médio demonstram que o organismo da sociedade precisa evoluir, e vai criando essas células cancerosas que vão se destacando do organismo principal e ao mesmo tempo atacando, ferindo de morte esses organismos antigos.
Muitos dizem que o Rio de Janeiro está em decadência... Há um certo saudosismo, que não é exclusividade do carioca. Há gente fixada nos anos 1940, nos 1960... o Ruy Castro é fixado nos 1960, o Arthur Xexéo nos 1950. Realmente, o Rio foi muito agredido pelo excesso de população... Agora, nunca foi uma cidade muito limpa. Quando a corte portuguesa veio para cá, embora não fosse grande coisa em termos de higiene, ficou horrorizada com os detritos jogados na rua. Não há cidade mais linda. Mas há muito Baile da Ilha Fiscal aqui, com predominância desse povo bestificado que se submete à violência, suja tudo, vota mal, lê mal e vive mal.
Você é um saudosista? Não tenho nenhuma nostalgia. Sou um melancólico, é diferente. Nostalgia é ter saudade daquilo que passou. Melancolia é ter saudade daquilo que ainda não veio.
Tem algum sonho? Nunca tive nem projeto de vida. Minha agenda atual é morrer. Se você me der o Nobel, aceito. Mas não penso um minuto nisso.
Sonha muito? O Quase memória nasceu de um sonho. E eu tinha passado 23 anos sem escrever ficção. Ia escrever uma crônica diária, 2 mil caracteres, aí aumentei pra 6 mil, aumentei pra 10 mil, na Manchete, passei, o sonho não tinha acabado... Muitos livros saem de sonhos, a Divina Comédia por exemplo. Sonho é um deflagrador de ideias, mas não da forma científica como o Freud dizia.
Quem no Brasil mereceria um Nobel? O Brasil não pertence ao circuito cultural internacional. Talvez a pessoa que esteja mais próxima disso seja a Nélida Piñon. Tenho oito prêmios vagabundos, cinco Jabutis, dois Livros do Ano, um da ABL.... prêmios de dimensão subdesenvolvida em termos de circuito cultural. Ela ganhou o Astúrias, o Juan Rulfo. Isso pesa. Mas o Nobel não significa necessariamente qualidade. Dario Fo ganhou, Italo Calvino não ganhou, nem Graham Greene, nem Guimarães Rosa... Não vou dizer a palavra política, pois é uma palavra corrompida. Mas o Nobel não me parece critério de valor.
Que acha da literatura contemporânea? A literatura é mais jornalística hoje que reflexiva. Há evidentemente uns porra-loucas isolados, fazendo suas obras, sem se contaminar com o público. Autran Dourado, Raduan Nassar. O lado reflexivo, que chamo de debaixo da mesa, é pequeno, há muito jornalismo e pouca reflexão.
Acha que os leitores têm obsessão com a realidade? Necessidade de informação. Esses livros mais jornalísticos trazem informação, mas quase nenhuma reflexão.
O jornalismo contaminou o jeito de olhar o mundo? Minha visão é pessimista, de quem vê de debaixo da mesa. No jornalismo eu pago o tributo temporal. São visões diferentes.
Considera-se um autor realista? O realismo nada teve a ver com o tipo de jornalismo que faço. Otto Maria Carpeaux escreveu, num ensaio, que sou “o principal representante do neo-realismo brasileiro”. Adorei o Carpeaux, mas não entendi a classificação. Não me considero realista nem na literatura nem no jornalismo.
O que está lendo? Relendo mais que lendo. Reli agora mesmo toda a obra de ficção de Sartre para fazer uma palestra na UFRJ em razão do centenário do autor. Engatei Almas mortas, de Gógol, e o livro do Ruy Castro sobre a Carmen Miranda.
E da literatura brasileira, do que gosta? São muitos os bons escritores que não ganham lugar na mídia e nas listas dos mais vendidos, na academia etc. Poderia citar Sylvan Paezzo, que estreou depois de mim, José Condé, que teve sua hora mas foi esquecido. Maura Lopes Cançado, uma fora-de-série. Não são de geração mais antiga. Os autores mais recentes estão fazendo o que devem: trabalhar para entrar no jogo.
E aquele livro que você está escrevendo? Parei, acho que não vou escrever mais. Gostaria de passar mais 23 anos sem escrever e voltar para escrever um romance chamado Toda memória [risos]. Tenho uns escombros para fazer um outro Pilatos, um livro análogo. Pilatos me deu muito prazer. Quase memória [romance que escreveu depois de 23 anos de silêncio, após ter publicado Pilatos] qualquer um poderia escrever. Já Pilatos — pode parecer presunção — só eu escreveria. Poxa, tem uma cena em que o português como o pênis do narrador como se fosse uma lingüiça bem temperada — é uma cena como poucas na literatura universal [risos]. Esse livro tem muito de Rabelais, que, junto com Swift, Sartre e Machado são grandes influências... Sabe, no período que fiquei sem escrever, li muitos livros que encaminhava para editoras. Uma vez caiu um livro meio estranho na minha mão, gostei e indiquei para publicação. Mas o editor devolveu o livro para o autor, dizendo “Você quer fazer uma literatura erótica como o Pilatos de Cony, mas não é por aí”... Pô, como o cara poderia chamar meu livro de erótico? Ele é totalmente antitesão. O Carpeaux disse que era como se masturbar lendo uma revista de turfe. Talvez seja o livro mais antiérótico da literatura brasileira. Se um casal ler meu livro, vai passar um mês sem trepar [risos].
Fale mais do livro novo... Parei este livro há mais de seis meses e somente agora o estou retomando, para publicar em 2006. Não chega a ser um romance. Já o intitulei de Rapsódia&Farsa. Apesar de ter pé e cabeça, o livro não tem ordem lógica nem cronológica, o personagem principal é improvável e a maioria das ações são fantásticas no mau sentido: há a mulher que morreu em Cabo Frio e ressuscitou, tornando-se dona de uma tenda espírita; um feiticeiro que não era feiticeiro, um grupo de alemãs que estava fabricando uma bomba atômica; um sujeito que transou com Madre Teresa de Calcutá em 1945...
Falando em Madre Teresa, é verdade que desistiu da fé depois que o Brasil perdeu a Copa de 1950, como se diz? Meu problema foi e é o seguinte: São Paulo diz que “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa doutrina”. São Paulo não duvidava da ressurreição, que soube por terceiros. No jogo Brasil x Uruguai da Copa 50, ninguém me contou nada. Vi com meus olhos a partida, onde havia 200 mil pessoas, 22 jogadores, um juiz, dois bandeirinhas e diversos gandulas. Dia seguinte, ouvi 200 mil versões diferentes sobre o jogo, que não teve cortinas pretas, alçapões, equipamento mágico etc. Tudo à luz do sol, sem truques. Foi então que pensei em São Paulo. Se não podia confiar no que havia visto na véspera, como poderia confiar em terceiros, séculos após o jogo ter sido disputado — no caso, a ressurreição em si —, logo, minha fé seria vã, não somente sobre o jogo que havia visto na véspera, mas sobre fatos mais antigos.
De que se arrepende não ter feito nesses oitenta anos? Gostaria de ter aprendido o alemão para ler Goethe no original.
Para finalizar: há uma história clássica de Antônio Maria, queria confirmar com você. Num avião, o cronista conheceu uma moça, que a teria tomado por Carlos Heitor Cony. “E aí?”, teria dito você, ao ouvir a história dele. “Aí levei-a para um bar, depois uma boate, depois para casa...”, contava Antônio. “E então?”, você insistia. “Aí, Cony, você broxou!”... [Risos] A história foi contada pela primeira vez pelo Ivan Lessa, na orelha de um livro de crônicas do Antônio Maria. Depois por vários outros autores, inclusive pelo Joaquim Ferreira dos Santos, autor da única biografia de Antônio Maria até agora existente. Já ouvi versões que citam Vinicius, Tom Jobim, e até o Jorge Amado. Todos seriam muito conhecidos, com fotos quase diárias no jornal. Pra fazer sentido, o personagem teria de ser um sujeito desconhecido, em início de carreira, não um anônimo como eu [risos]...
Revista V, Ano 2, Número 16, Jan/Fev 2006
Oficina presencial de ficções breves
—> na Casa Reformatório em São Paulo
É nesta simpática sala da Casa da Editora Reformatório em Perdizes, São Paulo, que vai rolar a nova edição do meu curso Submarino, em abril. Eu estava com saudade de encontros presenciais. Serão cinco, às segundas-feiras, entre as 19h30 as 22h30, em que vou analisar uns trocentos livros & autores e propor exercícios de ficções breves, que depois leremos e comentaremos em aula. Ainda há vagas. Bora? Te conto tudo em ronaldobressane@gmail.com.
Gracias pela leitura,
abraços,
Ronaldo Bressane









Ziraldo precisaria de duas cadeiras na ABL, uma para ele e outra para o ego.
Ótima entrevista